Sábado, 26 de Maio de 2012

Comemorações da Independência

Estamos de volta! E com algumas novidades! Passadas as festividades e todos os compromissos profissionais que nos ocuparam nas últimas semanas, temos finalmente tempo para descontrair, tirar fotografias e claro voltar o blogue.

Primeiro, parabéns a Timor-Leste pelo seu 10.º aniversário! Foi com pompa e circunstância que este jovem país festejou, no passado dia 20 de Maio, a sua primeira década de independência. Tal como uma criança, já tem os seus vícios e manias (típicos de que passou de bebé carente a menino ultra-mimado), mas continuamos a acreditar que tem potencial para tornar-se um adulto responsável, estável e exemplar.

Há semanas que a cidade andava em preparativos: as principais ruas que ligam o aeroporto ao centro de Díli foram asfaltadas, construíram-se passeios e separadores centrais, foram cortadas árvores velhas e plantadas novas, por todo o lado surgiram bandeiras de Timor-Leste. Anunciaram-se novas obras, como a construção da nova ponte de Comoro (essencial) e a nova rotunda do aeroporto dedicada aos Cinco Heróis da Pátria (totalmente desnecessária – já agora, alguém nos sabe dizer quem são os cinco heróis? Nicolau Lobato, Konis Santana e os outros três?). Os banners publicitários anunciavam inúmeros eventos comemorativos, desde os mais institucionais (que incluíram a visita das comitivas portuguesa, indonésia e australiana) às mais populares, encabeçadas pelo mega-concerto da dupla brasileira Leo e Leandro em Tasi Tolu! Houve mesmo de tudo! Só foi pena não ter havido nenhum artista português no calendário das comemorações populares.

O PR Cavaco Silva veio rodeado da turma do costume: a sua Maria, Paulo Portas, deputados, pessoal do protocolo, jornalistas e empresários. Todos andaram numa roda-viva de inaugurações, cocktails, recepções e jantares. A comunidade portuguesa residente em Timor-Leste foi convidada para uma recepção na Escola Portuguesa de Díli, onde, entre discursos, entregas de medalhas e bacalhau com natas, ainda houve tempo para ouvir três ou quatro fados cantados pela Kátia Guerreiro (que está a acompanhar o périplo do PR pelo Sudeste Asiático e Austrália exactamente para dar um ar da sua graça nestas recepções, que tacho!).

Ainda a marcar as comemorações, o jovem nadador português de dezoito anos João Baeta concluiu com sucesso a travessia a nado entre Ataúro e Díli. Foram cerca de dez horas (como é possível!) a lutar contra as fortes correntes e a elevada temperatura da água, mas conseguiu e venceu o desafio! Deve estar, sem dúvida, orgulhoso do feito alcançado!

Para terminar em beleza, deixamos um registo fotográfico de mais uma sesta protocolar protagonizada por portugueses em actos oficiais. Depois do nosso Embaixador ter dormido profundamente numa recepção em Ataúro ao lado de Ramos-Horta, foi agora a vez de Maria Cavaco Silva defender, não com palavras mas com acções, os benefícios da sesta em plena cerimónia da tomada de posse do novo PR Taur Matan Ruak. Coitada, damos-lhe um desconto: a idade e o jet lag não perdoam!
Fotografia cujo autor desconhecemos
Por fim, temos recebido muitos pedidos de leitores que querem entrar em contacto mais directo connosco, por isso decidimos abrir uma conta de e-mail dedicada ao blogue. A partir de hoje, todos aqueles que têm questões para nos colocar, podem enviá-las para onovoselvagem@gmail.com, uma conta de e-mail ao vosso dispor.

Segunda-feira, 14 de Maio de 2012

Ponto de situação - curtas

Estas últimas duas semanas têm sido uma verdadeira loucura de trabalho: o Bruno, com um projecto com prazo para dia 16 deste mês e sempre coisas novas a surgir diariamente, tem trabalhado de dia e de noite, fins-de-semana incluídos; a Joana com uma reunião importante em Jacarta que implicou dias de preparação, sem deixar de ter outros trabalhos pendentes! Enfim, uma correria sem fim, que nos faz desejar que este mês termine depressa e a vida volte ao seu ritmo normal, sem prazos nem projectos a contra-relógio.

O blogue tem naturalmente ficado para trás, mas cá estamos nós a dar sinais de vida e a manter-vos a par do que se vai passando na ilha do avô-crocodilo. E, perguntam vocês, o que é que tem acontecido por aqui? Para além de muito trabalho e horários loucos, as estradas continuam em obras, o trânsito está pior do que alguma vez esteve, os preparativos para as celebrações do 20 de Maio continuam a um ritmo (parece-nos) demasiado lento, passou por aqui uma tempestade tropical vinda de Darwin que nos deixou sem sol (nem água quente) durante três dias, a Joana foi picada por formigas vermelhas nas pernas e está com uma reacção alérgica, o Cavaco Silva e Bambang (o PR Indonésio) estão a caminho e prevêem-se dias de trânsito ainda pior, a internet anda tão lenta que é um desespero!

No sábado passado, foi a Maratona de Díli. Queríamos ter ido até lá (não para correr, já que não temos treino para isso e cansados como andamos só se fossemos incluídos na categoria “passeio da terceira idade”) para tirar algumas fotografias, mas para isso teríamos de chegar à zona da partida antes das 6h30!! Optámos por ficar a dormir mais um pouco (no caso do Bruno, muito pouco mesmo uma vez que às 8h00 já estava a trabalhar) e não temos registo do evento para vos mostrar!

De Jacarta a Joana pouco viu. Quando chegou já era de noite, passou a manhã no hotel a estudar e a tarde em reunião e nessa noite regressou para Díli. Ainda assim, ficou com a impressão de que Senayan, o bairro financeiro, tem óptimo aspecto: prédios contemporâneos, alguns arranha-céus, largas avenidas, muitos jardins, tudo limpo e arranjado. Nem mesmo o trânsito caótico, do qual tanta gente se queixa, se fez sentir. Um jantar típico no deslumbrante Oasis e a oportunidade de fotografar apenas a vista do quarto do hotel!

Por fim, uma nota muito pessoal: celebrámos na semana passada dez anos juntos! É isso mesmo, dez! Uma década, uma loucura dirão alguns, uma felicidade imensa dizemos nós! Que se repita por muitos e bons anos, que nós cá estaremos para vivê-los de coração aberto! =)

Uma música em homenagem a nós para animar o vosso dia! =) Sejam felizes, meus senhores (or die trying)!

Terça-feira, 1 de Maio de 2012

Momentos insólitos IV

Como a Sara disse em tempos (aqui), a rubrica “Momentos Insólitos” já podia ir nas dezenas tantos são os episódios caricaturais que temos vivido. Alguns acabam por ser inseridos no âmbito de outros posts mais alargados (assim de repente lembramo-nos do frigorífico atado à bis que vos mostrámos no post sobre a ida a Com), outros caem no esquecimento e por último existem aqueles que de tão rotineiros já passámos a ver com alguma normalidade. No entanto, este país consegue sempre surpreender-nos!
O mais recente momento insólito aconteceu ontem à tarde com a Joana: estava a trabalhar quando começou a ouvir tambores e pratos a tocar ritmadamente sons da Ásia. Aproximou-se da janela e eis que no parque de estacionamento acontecia uma celebração chinesa (cujo significado desconhecemos mas acreditamos que será para trazer prosperidade e afastar os maus espíritos). Atrás dos músicos seguia um animado grupo de dançarinos com um típico dragão chinês que corria, ondulava e pulava enquanto um grupo de chineses queimava incenso!
Desta é que não estava à espera quando se levantou para ver que barulheira era aquela!
De início teve muita graça, mas a cerimónia prolongou-se por tanto tempo que a Joana já não podia ouvir mais aqueles tambores! Mas não teve outro remédio senão esperar e tentar abstrair-se porque eles só se foram embora já era mesmo de noite!
Como diria Fernando Pessa, “E esta, hein?” E vocês, qual a probabilidade de assistirem a algo parecido da janela do local onde trabalham ou vivem? =)




Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

Lore - praia ou paraíso?

Foi então que, ao fim de dezenas de quilómetros e várias horas de solavancos no carro e depois duma semana de grande expectativa, chegámos a Lore. E ficámos absolutamente deslumbrados! Desilusão zero! Satisfação máxima!
Lore não passa duma aldeola de cabanas de colmo e palapa, distribuídas ao longo da estrada de terra que corre paralela ao mar. Mas aquele mar e aquela praia valem por tudo! Trata-se duma baía recortada na costa, com areia branca e fina e um mar quente (mas não o caldo da margem norte), com ondulação boa para brincar e uma cor azul que nem a melhor máquina fotográfica poderia captar! Digno dum postal de fazer inveja aos “melhores” destinos paradisíacos!
Alguns podem questionar-se se valerá a pena tanta coisa por causa duma simples praia, havendo tantas e tão belas ao longo de toda a costa norte. É verdade, mas para nós vale! São estas paisagens que nos tiram a respiração e nos deixam a pensar em como é fantástico este lugar. Mergulhar ali, onde não havia mais ninguém à vista excepto meia dúzia de miúdos que brincavam despreocupadamente, nem mais nada que fazer, lavou-nos a alma e deu-nos o descanso de que há muito estávamos a precisar. Rimos, nadámos, brincámos, fotografámos, descansámos, abstraimo-nos do mundo e, por momentos, vivemos a vida simples daquelas crianças que partilharam a sua praia connosco e desfrutámos da riqueza que é viver assim, sem stress, sem carros, sem restaurantes, sem esplanadas...apenas nós e o mar e a nossa vontade! Serenidade total.
E foi assim, com as energias completamentes reforçadas, que voltámos à estrada e nos despedimos de Lore, em silêncio e com a certeza de termos descoberto mais um pequeno pedaço do Paraíso! =)
Aldeia de Lore

Conselho de amigo: não se aventurem nesta estrada! Apesar de vir no mapa, vai dar a uma selva densa da qual é dificílimo sair porque não há espaço para inverter a marcha e a certa altura deixa-se também de conseguir progredir porque as árvores dominam a estrada.

Baía de Lore (Jaco é algures lá ao fundo). Simplesmente fantástica!

A outra ponta da praia

A satisfação de chegar ao destino desejado e ficar sem palavras (o colar de búzios é artesanato de Com)

O Índico tem sempre mais ondulação do que o Pacífico, que banha a margem norte da ilha de Timor, daí que o primeiro se chame Tasi Mane (Mar Homem) e o último Tasi Feto (Mar Mulher)

A floresta cresce mar adentro!

Depois de belos mergulhos naquele mar azul idílico!

Crocodilos (ou lafayek, em tétum) nem vê-los! Acho que, ao contrário de nós, eles não gostam de apanhar carreirinhas =) Fora de brincadeiras, a verdade é que tendem a ficar na foz das ribeiras onde é mais fácil caçarem algum frango ou porco mais desprevenido.

As sombras que nos acolheram

Este grupo de miúdos passou a tarde toda a correr para perto de nós e a fugir. Nem tétum, nem português, nem inglês, nem a máquina fotográfica...nada os fazia aproximar-se! Só se riam e fugiam...

Até que o poder maravilhoso da tecnologia aproximou povos, culturas e idades! Já estávamos de partida quando o Bruno se lembrou de tirar uma foto panorâmica com o iPad a esta praia fantástica e os miúdos pasmados vieram logo a correr ver que engenhoca era aquela.

Estavam maravilhados com aquele "espelho que reflecte o outro lado" e riam-se tanto ao ver os amigos a aparecer no ecrã!

Quebraram-se as fronteiras, rimo-nos todos juntos e no fim deixaram que lhes tirássemos uma foto do "modo tradicional"! Momentos para mais tarde recordar duma das tardes mais bem passadas em Timor =)

Terça-feira, 24 de Abril de 2012

Fim-de-semana da Páscoa: Com - Lore

Durante o fim-de-semana da Páscoa, ficámos hospedados, pela primeira vez, no Ecoresort de Com, que se revelou uma agradável surpresa. Não passa dum complexo de contentores, mas nota-se o cuidado com o espaço e o esforço para disfarçar o aspecto industrial que os contentores naturalmente têm. Os “quartos” cumprem os requisitos mínimos, com ar condicionado e duche de água quente. Existe ainda um restaurante mesmo em cima da praia, onde se pode jantar um fresquíssimo peixe grelhado e saborear uma chávena de café Timor (ao contrário do “expresso” que é café de máquina, “café Timor” é de café de saco ou de cafeteira). No contexto da oferta hoteleira disponível em Timor-Leste, não está nada mal! O ponto negativo é um preço, o valor que aqui se paga por noite, sem direito a jantar, nem a pequeno-almoço, está claramente inflacionado (pagámos cerca de USD 75 por noite)!
A construção deste Ecoresort partiu da iniciativa dum australiano e a gestão está a cargo dum casal indonésio, os restantes funcionários são todos timorenses de Com. Arriscamos dizer que este é o motor da economia de Com e proporcionou o aparecimento de pequenos cafés, restaurantes, bancas de artesanato e guest houses timorenses, que atraem um público (ainda) menos exigente e que não está disposto a pagar os preços elevados que ali são cobrados.
No alpendre do contentor adaptado a casa. Bem giro, não acham? Com telhado tradicional e tudo!

Praia de Com

Ecoresort de Com

Miúdos brincam na praia

Depois do pequeno-almoço tomado, fizemo-nos à estrada. Ao contrário da maioria dos hóspedes que ali se encontravam, não fomos até Jaco (o ilhéu na extremidade leste, que é um paraíso de praias desertas e snorkeling entre imensos corais, ao qual devemos há muito um post neste blogue). Desta vez, decidimos deixar Jaco para os turistas e fizemos mais uns quilómetros para sul. Atravessámos o planalto, passámos por Lospalos (a capital de distrito) e continuámos mais para sul entre vales e montanhas, aldeias, curvas e buracos… até chegarmos a Lore!
"Malae!" - O grito, sempre acompanhado de acenos e sorrisos, que as crianças lançam assim que veêm um carro com estrangeiros a passar

Vimos milho a secar em todas as aldeias. Aquele que já foi a base alimentar de Timor-Leste, perdeu o lugar para o arroz, mas nos distritos mais a leste continua a marcar forte presença.

Lugar insólito para apanhar sol!

Aldeia entre Com e Bauro

Construção típica

Vimos várias campas decoradas assim com crânios e cornos de animais. Desconhecemos o seu significado. Se algum dos nossos leitores poder eslarecer-nos, ficamos muito agradecidos!

Mais campas assim decoradas, algo que nunca vimos noutros distritos.

Pimp my bike! Grande estilo! Escusado será dizer que fizemos a festa com os rapazes lá atrás que são os donos da mota =)

Lindo este cão timorense e gordinho, o que infelizmente é raro ver em Díli.

Paisagem entre Com e Bauro

Mural em Lospalos

Numa aldeia entre Maluro e Lore. Vimos muitos "mausoléus" parecidos com este, onde estão enterrados aqueles que deram a vida pela Resistência.

Sábado é dia de lavar a roupa
Lore, na margem sul, era o destino almejado, que vinha recomendado com a promessa de ali encontrarmos um dos mais extensos e bonitos areais da ilha! Será? =)
E por fim, o regresso à costa sul! Tasi Mane (nome dado ao mar do sul) em todo o seu esplendor!

Domingo, 22 de Abril de 2012

Fim-de-semana da Páscoa: Díli - Baucau - Com

No fim-de-semana da Páscoa, aproveitando o feriado à sexta-feira, decidimos sair de Díli por uns dias e rumar a leste. Lancheira pronta, reservas feitas, aqui vamos nós tendo como primeira paragem Baucau.
A viagem foi tranquila e pudemos ver alguns festejos pascais ao longo do caminho. Como era esperado, os arrozais estavam verdes e lindíssimos nesta época da chuva e os karaus (búfalos de água) refrescavam-se nos charcos de que tanto gostam. A chuva, que ameaçava pôr os nossos planos em risco, caiu apenas durante dez minutos antes de chegarmos a Baucau e não atrapalhou. Uma vez aqui chegados, seguimos até à Pousada (esta), onde almoçámos uma deliciosa espetada de peixe, seguida de café (aqui chamam-lhe “expresso”) com um bolinho de areia. Delicioso!
Celebração pascal em Metinaro

Montanhas e mar no Subão, a caminho de Baucau

"Bis" (autocarro) a levar pessoas e bens de Díli para Baucau. Aquilo é mesmo um frigorífico: os avisos de segurança dizem que não pode ir na vertical na bagageira duma pick-up, mas de facto não diz que não pode ir atado à traseira dum autocarro! E os rapazes, conseguem imaginar em que estado chegarão a Baucau?!

Palmeiras e arrozais

Mulheres vão buscar água à ribeira

Ribeira

Arrozais

Karaus no banho de beleza
 
Decidimos então ir ver o famoso antigo Mercado Municipal de Baucau. Um edifício imponente, uma jóia da arquitectura colonial portuguesa em avançado estado de degradação e a precisar de recuperação urgente para poder ser utilizado em benefício da população local e apreciado pelos turistas!

Antigo Mercado de Baucau

Hoje não passa dum edifício em ruínas mas consegue-se imaginar o esplendor que terá tido no passado!
 
Voltámos a fazer-nos à estrada, atravessando todo o distrito de Manatuto e entrando no de Lautém. Procurámos crocodilos mas não os encontrámos! Encantámo-nos com a Uma Lulik à chegada a Com. E ao jantar, a acompanhar um maravilhoso peixe grelhado, um luar daqueles para não esquecer! O fim-de-semana prolongado começava bem e prometia ser memorável =)

O mar e os arrozais

Sucalcos

Chuva no mar, sol em terra

Karaus

Karaus pastam junto ao mar

Sensação de isolamento

Ultrapassando todos os obstáculos para chegar a Com

Ribeira onde se pode avistar crocodilos (não vimos lá nenhum, mas havia pegadas e um karau morto ao fundo na margem esquerda)

"Uma lulik", a casa-sagrada típica de Lautém, onde se guardam os objectos sagrados e se tomam as grandes decisões relativas ao Suco (uma espécie de freguesia)

Lua cheia em Com